quarta-feira, 22 de abril de 2026

Crônica – Renúncia



Renunciar por amor.

Há decisões que não chegam de repente. Elas se aproximam devagar, como uma sombra que cresce sem pedir licença. Eu passei dias me preparando para esse momento. Sabia que ele viria, ainda que tentasse adiá-lo com pensamentos mais leves, com distrações pequenas, com a esperança de que, talvez, não fosse necessário.

Mas era.

O dia da renúncia chegou silencioso. Não houve anúncio, nem sinal claro. Apenas uma certeza que se instalou dentro de mim, firme, inevitável.

E, quando fiz oportuno, a dor veio.

Não uma dor qualquer, mas uma dor profunda, dessas que atravessam o corpo e encontram lugar na alma. Era como um parto — lento, intenso, impossível de ignorar. Doía na alma, no peito, no coração. E, por um instante, tive a sensação de que algo em mim estava sendo arrancado.

Perguntei a mim mesma: e a alma?

A alma se sentia perdida. Como se tivesse sido lançada para fora do corpo, exposta ao vento, ao relento, sem abrigo. A força interna, aquela que tantas vezes me sustentou, parecia não existir naquele momento.

E, ainda assim, algo resistia.

Resistia à dor maior. À suprema dor. Àquela que só existe quando o amor é verdadeiro.

Porque renunciar por amor não é deixar de amar. É amar de outra forma — uma forma que não cabe mais na presença, mas insiste em permanecer na ausência.

Era um amor de alma.
De carma.
De paixão.

E foi exatamente por isso que doeu tanto.

No instante em que escolhi renunciar, senti como se estivesse assinando o sepultamento de uma história. Não qualquer história  mas uma história viva, construída com sentimentos reais, com entrega, com verdade.

Uma história de amor.

E, depois disso, restou o silêncio.

Um silêncio que não grita, mas pesa. Um silêncio que acompanha, que observa, que transforma.

Hoje, compreendo que renunciar também é um ato de coragem.

Coragem de aceitar o fim.
Coragem de sustentar a dor.
Coragem de seguir… mesmo quando parte de nós fica para trás.

Porque há amores que não terminam.

Apenas mudam de lugar dentro de nós.


Sândra Camilo  22 de abril de 2026 

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