quinta-feira, 30 de abril de 2026

Crônica – Sem sentir, sentindo

 



Atuar… atuar…
é a oportunidade de vivermos diversos sentimentos… sem sentir, sentindo.

Sempre achei curioso como o corpo aprende a obedecer emoções que, na verdade, não lhe pertencem.

Há algo de mágico — e, ao mesmo tempo, profundamente humano — nesse ato de viver o que não é nosso… e, ainda assim, sentir como se fosse.

Quando atuo, não deixo de ser quem sou.
Mas também não sou apenas eu.

Existe um espaço entre o que sou e o que interpreto. Um lugar invisível, onde a alma se permite atravessar outras vidas sem precisar carregá-las depois.

E talvez seja isso que me encanta.

Poder amar sem amar.
Chorar sem sofrer.
Desejar sem possuir.

Sentir… sem precisar sentir de verdade.

Mas será mesmo que não sentimos?

Porque, em algum momento, algo toca.
Algo escapa.
Algo fica.

E aquilo que parecia apenas interpretação começa a se misturar com quem somos. Pequenos gestos, olhares, respirações… tudo vai encontrando um lugar dentro da gente.

Atuar não é fingir.

É permitir-se atravessar.

É emprestar o corpo, a voz, o olhar… para que outra história exista, ainda que por alguns instantes. E, nesse processo, descobrimos partes de nós que talvez nunca teríamos acessado de outra forma.

Há personagens que passam.
E há aqueles que ficam.

Ficam na forma de um silêncio diferente.
De uma memória que não sabemos de onde veio.
De uma emoção que não tem nome.

E então compreendo…

que atuar é viver muitas vidas dentro de uma só.

Sem sentir…
sentindo.

E, talvez, no fim, seja essa a forma mais bonita de liberdade:
poder ser tantos…
sem deixar de ser quem se é.


Sândra Camilo - 01-05-2026 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Crônica – Kombi no Estadão



Em minhas memórias, as viagens sempre foram longas.

Não longas apenas em quilômetros, mas longas no tempo que ocupavam dentro de mim. Eram daquelas viagens que não terminam quando se chega, porque continuam acontecendo na lembrança.

Numa dessas noites, eu fazia anotações das placas que via e lia. Não sabia exatamente por quê. Apenas sentia que precisava registrar algo — como se aquelas palavras, espalhadas pelas estradas, fossem pistas de um caminho maior.

Eu não sabia o que fazia ali… apenas tinha que ir.

As estradas de um grande Estadão — sim, porque São Paulo é um grande Estadão. Um lugar que parece não terminar nunca, que se estende além do que os olhos alcançam e, às vezes, além do que o coração consegue compreender.

A Kombi vermelha era nossa condutora de rodas. E nós, seus companheiros de travessia.

Havia, naquele movimento constante, algo que hoje reconheço como pactos com o passado. Na época, eu não entendia. Hoje, são cenas curtas que voltam, insistentes, no decorrer dos meus dias — como pequenos filmes que se repetem sem pedir licença.

O condutor da Kombi vermelha…
tinha uma idade difícil de definir. Era maduro para os senhores, velho para os jovens e, curiosamente, jovem para os velhos. Talvez fosse apenas alguém que carregava o tempo de um jeito diferente.

Lembro-me de uma placa.

“Cavalo dado não se olha os dentes.”

Li aquela frase exatamente no momento em que eu estava prestes a reclamar da demora. Porque nunca chegávamos. Porque aquele estado parecia crescer à medida que avançávamos.

Toda vez que eu perguntava:
— Aonde vamos dessa vez?

A resposta era sempre a mesma:
— Aqui mesmo no estado.

E eu pensava, em silêncio:
que estado é esse que não acaba e nunca chega?

Aquela placa, escrita na traseira de um caminhão, ficou comigo. Não pela frase em si, mas pelo momento em que ela apareceu. Talvez tenha sido ali que comecei a entender que nem tudo precisa ser questionado. Que algumas coisas apenas acontecem — e cabem a nós atravessá-las.

Ainda assim, eu perguntava.

Perguntava muito.

— Está perto?
— Está chegando?
— Falta muito?

Perguntas de quem não sabe esperar… ou de quem ainda não aprendeu a viajar.

E, então, chegávamos.

E o lugar era sempre… surpreendente.

Lindo para quadros.
Para cenas de filmes.
Para recitar poemas em voz baixa.
Para correr sem destino, brincando com borboletas como se o tempo tivesse parado só para nós.

Hoje, quando volto a essas memórias, percebo algo curioso.

Não sinto saudade dos longos passeios.
Nem de correr atrás de borboletas.
Nem das estradas intermináveis dentro de um só estado.

A saudade…
é só do condutor falante.

Talvez porque, no fim, não era a estrada que importava.

Era quem a atravessava comigo.

Mais um episódio da Kombi no Estadão.


Sândra Camilo

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Crônica – Renúncia



Renunciar por amor.

Há decisões que não chegam de repente. Elas se aproximam devagar, como uma sombra que cresce sem pedir licença. Eu passei dias me preparando para esse momento. Sabia que ele viria, ainda que tentasse adiá-lo com pensamentos mais leves, com distrações pequenas, com a esperança de que, talvez, não fosse necessário.

Mas era.

O dia da renúncia chegou silencioso. Não houve anúncio, nem sinal claro. Apenas uma certeza que se instalou dentro de mim, firme, inevitável.

E, quando fiz oportuno, a dor veio.

Não uma dor qualquer, mas uma dor profunda, dessas que atravessam o corpo e encontram lugar na alma. Era como um parto — lento, intenso, impossível de ignorar. Doía na alma, no peito, no coração. E, por um instante, tive a sensação de que algo em mim estava sendo arrancado.

Perguntei a mim mesma: e a alma?

A alma se sentia perdida. Como se tivesse sido lançada para fora do corpo, exposta ao vento, ao relento, sem abrigo. A força interna, aquela que tantas vezes me sustentou, parecia não existir naquele momento.

E, ainda assim, algo resistia.

Resistia à dor maior. À suprema dor. Àquela que só existe quando o amor é verdadeiro.

Porque renunciar por amor não é deixar de amar. É amar de outra forma — uma forma que não cabe mais na presença, mas insiste em permanecer na ausência.

Era um amor de alma.
De carma.
De paixão.

E foi exatamente por isso que doeu tanto.

No instante em que escolhi renunciar, senti como se estivesse assinando o sepultamento de uma história. Não qualquer história  mas uma história viva, construída com sentimentos reais, com entrega, com verdade.

Uma história de amor.

E, depois disso, restou o silêncio.

Um silêncio que não grita, mas pesa. Um silêncio que acompanha, que observa, que transforma.

Hoje, compreendo que renunciar também é um ato de coragem.

Coragem de aceitar o fim.
Coragem de sustentar a dor.
Coragem de seguir… mesmo quando parte de nós fica para trás.

Porque há amores que não terminam.

Apenas mudam de lugar dentro de nós.


Sândra Camilo  22 de abril de 2026 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Crônica – Quando a alma escreve



A minha alma expele felicidade…

Não é um gesto contido, nem um pensamento que se organiza em silêncio. É algo que escapa, que transborda, que encontra caminho mesmo quando tento segurar.

Por cada palavra escrita, há um mundo que se abre.

Não escrevo apenas com as mãos. Escrevo com aquilo que me atravessa — memórias, imagens, vozes que surgem sem pedir licença. São roteiros inteiros criados dentro de mim, cenas que acontecem antes mesmo de existirem no papel.

Às vezes, fecho os olhos… e já estou lá.

Caminhando por lugares que nunca visitei, conversando com pessoas que nunca encontrei, sentindo emoções que não sei explicar de onde vieram. E, ainda assim, tudo parece verdadeiro.

Talvez seja isso a escrita.

Um espaço onde a vida não precisa pedir permissão para acontecer.

Cada palavra que escolho carrega um pedaço de liberdade. Não aquela liberdade grandiosa que se anuncia ao mundo, mas a liberdade íntima — silenciosa — de poder ser quem sou sem precisar explicar.

Escrever me devolve a mim.

Há dias em que a alma pesa, em que o mundo se torna estreito demais, em que os pensamentos se acumulam sem saída. E então escrevo. E, ao escrever, algo se abre.

Como se o ar voltasse a circular.

Como se o que estava preso encontrasse passagem.

A felicidade, nesse caso, não é um estado. É um movimento.

Ela acontece no instante em que me permito sentir, no momento em que deixo que as palavras escorram sem medo de julgamento, sem a necessidade de parecer algo além do que são.

Escrever é, para mim, uma forma de respirar.

E talvez por isso a minha alma expele felicidade…
porque, ao escrever, eu me liberto.

E, ao me libertar, existo.



Sândra Camilo 


15 de abril de 2026 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Crónica – 665 quilômetros



Foi com passos largos que percorri 665 quilômetros de Kombi até chegarmos ao destino.

Saímos cedo, ainda com o corpo carregando o silêncio da manhã. A estrada de terra parecia infinita — um traço contínuo entre pequenas cidades que surgiam e desapareciam sem aviso. Cruzamos o Estadão como quem atravessa um tempo que não se mede em horas, mas em distância sentida.

E ainda assim… parecia que não chegávamos nunca.

Havia algo naquele percurso que suspendia o tempo. Talvez fosse a luz dos candeeiros, tão parecida com a da época de meus avós, ou o som distante dos animais silvestres, que nos acompanhava como um fundo invisível. À noite, o céu se abria em estrelas, e lá estavam elas — as Três Marias — firmes, como um ponto de orientação para quem se perde por dentro.

O rádio nunca se calava.

O locutor mudava, as vozes se alternavam, mas a trilha seguia: músicas antigas, românticas, dessas que parecem tocar não só os ouvidos, mas algum lugar mais fundo, onde a memória ainda respira. Algumas canções traziam uma dor suave, uma saudade sem nome, daquelas que apertam o peito sem pedir explicação.

Quando falo em passos largos, não me refiro ao tempo — mas à velocidade.

O condutor da Kombi dirigia como quem canta junto. Acompanhava cada música com a própria voz, enquanto acelerava sem hesitar. As placas passavam rápidas demais; não havia tempo para lê-las por completo. Era como se o caminho não precisasse ser compreendido, apenas atravessado.

Do lado de fora, os outdoors se sucediam — promessas, produtos, histórias interrompidas. Eu os observava como quem tenta decifrar um mundo em movimento. As cidades, construídas pelo tempo, revelavam seus contornos em detalhes silenciosos: fachadas gastas, esquinas vividas, janelas que guardavam vidas inteiras.

E eu… viajava.

Não apenas pela estrada, mas pelas histórias que inventava a cada quilômetro. Criava vidas, destinos, encontros que nunca aconteceram — e, ainda assim, pareciam reais.

Talvez seja isso viajar.

Não apenas chegar a um lugar, mas permitir-se existir em todos os outros que a imaginação alcança.

E, entre uma canção e outra, entre uma cidade e outra, eu seguia — levando comigo aquilo que não se vê, mas que permanece.


Sândra Camilo - 9 de abril  de 2026 

Vejo a luz acesa na Janela



Vejo a luz acesa na janela.
Caminhava com pressa para chegar —
até que ela me deteve, silenciosa.

Há um anseio estranho
que me envolve
e me devolve
a um outro lugar.

Sinto-me presa,
desolada,
sem ninguém a quem falar.

Meus olhos se fecham,
como se recusassem o mundo.

Minha alma se esconde,
recolhe-se de tudo.

As pernas tremem,
envoltas em arrepios
que nascem só de pensar.

A luz da janela, acesa, me enjoa —
porque eu sei
o que existe lá.

E, ainda assim,
é para lá que pertenço.

O Estadão é o meu lugar.

21/10/2014 — 22:05
São Paulo

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Vejo a Luz Acessa da Janela





Vejo a luz acesa da janela, caminhava com pressa para chegar, até a luz me bloquear.

Um anseio estranho que me envolve e me devolve para outro lugar.

Sinto-me presa, desolada, sem alguém para falar.

Meus olhos estão fechados.

Minha alma se esconde do lugar.

As pernas se envolvem nos arrepios que tenho só de pensar.

A luz da janela acesa me enjoa, porque sei o que tem lá.

O Estadão é o meu lugar!

21/10/2014 - 22:05 - São Paulo

Sândra Camilo 






sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O tempo e seus sentimentos




Eu queria que o tempo parasse…

Queria ter tempo para contar cada gota derramada nas torneiras da minha casa,

ter tempo para ver o relógio trocar os segundos, correr os minutos e estacionar em determinados horários,

escrever dias e dias,

ler sem tempo marcado,

caminhar por endereços estranhos,

engolir, saboreando, os pensamentos,

distanciar-me de determinadas pessoas sem nada sentir ou falar,

envolver-me mais com os movimentos das folhas verdes no balançar de seus galhos,

repousar na sombra de seu tronco,

adormecer com o canto dos pássaros

e despertar em um novo lugar onde a amizade não tenha preço,

o abraço não tenha reticências,

e o olhar seja um puro e simples olhar,

que o sorriso sirva para acalentar mais um dia.

Só quero pulsar nas minhas lembranças,
momentos em que existi com você dentro de mim —

um ser assim…
feito de amor.




by: Sandra Camillo

15-08-2014
23:39

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Amor é a vida! Já pensou em tudo o que amamos, de várias formas, durante o tempo que temos?





Sim, meu caro amigo!

Comer é amar… amar é amor… respirar é amor enquanto há vida… vida é amor em matéria.

Amar é olhar… olhar é amor em imagens…

Eu escreveria um poema, um conto, uma crônica sobre o amor…
ou apenas te observaria, sem nada dizer, por amor.


Sândra Camilo

http://instagram.com/sandracamillo

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O Silêncio é o remédio e o veneno





Silêncio, por favor…
eu quero escrever para o coração.

Hoje resolvi fugir um pouco —
não vou escrever sobre viagens pelo Estadão.

Quero falar do que senti
durante algumas viagens.

Não das cidades,
nem das ruas que atravessei,
nem dos nomes que ficaram nos mapas.

Mas das pausas.

Dos silêncios que me encontraram
quando ninguém mais estava olhando.

Viajei por dentro.

Em lugares onde o tempo não existe
e a memória respira devagar.

Houve dias em que fui casa,
outros… em que fui passagem.

Houve encontros
que não pediram palavras,
e despedidas
que nunca disseram adeus.

E em cada viagem…
levei um pouco de mim
e deixei outro tanto
sem perceber.

Porque viajar
não é apenas ir 

é também perder,
é também transformar,
é também voltar
sem ser a mesma.

Hoje, escrevo
não para contar onde estive,

mas para lembrar
quem me tornei
em cada lugar que senti.

Silêncio…

porque ainda estou escrevendo
com o que ficou
dentro de mim.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

De volta para darmos muitas voltas.





 


Ontem tive um sonho. Jesus conversou comigo, e suas palavras foram serenas, diretas e claras.

Ele me contou que deu de presente um livro a uma garota que desejava mudar sua vida, seus passos e seus pensamentos.

A garota imediatamente abriu o livro, com um sorriso no olhar, desejando ler rapidamente aquelas palavras.

Sua surpresa foi grande quando folheou todas as páginas.

O livro estava em branco.

Na última página, uma mensagem:

“Querida filha e irmã, reescreva sua história de vida.
Preencha cada página com um dia diferente, oferecendo amor, atenção e segurança para aqueles que você ama e que te amam.”

Um novo ano se inicia. Desejo aos amigos, irmãos e blogueiros um ano de paz e muita compreensão.

Se for dirigir, não beba. E, se beber, volte de táxi.




Sândra Camilo


domingo, 30 de agosto de 2009

Uma de tantas casas





 A jovem chegava alegremente à sua casa. No portão, havia caixas, móveis desmontados e diversos objetos encostados na parede.

Uma Kombi estava estacionada em frente à casa, do outro lado da rua.

Observava os dois lados sem entender, sem conseguir assimilar o que estaria acontecendo com sua residência.

Iriam mudar-se sem avisos? Quem teria tomado tal decisão? Algo tão sério… uma notícia e uma atitude a serem discutidas em família.

A cada passo, uma mensagem diferente vinha dos moradores da vizinhança.

— Vamos sentir saudades — dizia a senhora da casa número cinco.
— Os jogos da rua não serão mais os mesmos — comentou o jovem da casa número oito.

Na casa ao lado morava uma colega muito próxima, daquelas que tudo fazem juntas. Muito magoada, disse:

— Você é amiga mesmo! Vai se mudar e nem avisou?

Muitas palavras poderiam ser ditas para retribuir aquele carinho dos colegas e vizinhos, mas ela entrou sem nada dizer, deixando o silêncio falar por um sentimento de dor e angústia.

Olhou para sua mãe com os olhos lacrimejantes. Sem pronunciar nada, ouviu:

— Carregue as coisas do corredor, não demore. Ele quer viajar antes do anoitecer.

Tudo já estava acomodado dentro da Kombi: os móveis, um colchão de casal… e o cachorro, encaixado em um pequeno espaço que sobrara.

As amigas se abraçaram, mudas, ao som das próprias lágrimas.

Nos bancos da frente, o casal.
Atrás, os filhos, deitados sobre o colchão.

Enquanto a Kombi se movia em direção ao seu novo destino, dentro do grande Estadão, as pessoas se despediam apenas com olhares — sem nada saber.




Sândra Camilo  03- 08-2009 




terça-feira, 18 de agosto de 2009

Murici





17 quilômetros de estrada de barro.

A lembrança da estrada é sempre associada ao sabor do murici.

Quando chegava ao destino, logo na entrada havia um pé de murici. O condutor parava a Kombi, e o passageiro corria para abrir a porteira. Antes de fechá-la, comia um murici para adoçar o fim de semana.

Lembranças e sabores estão sempre lado a lado.

Olhos fechados, mente centrada… lembranças do passado, como:

sobremesas,
férias,
viagens,
lugares…

cada uma com um sabor —
essa, em especial, de murici.

De volta à estrada, mais 17 quilômetros até o Estadão.

A Kombi não passava dos 80 km/h — era o peso da carga.

Frutas para os amigos, a família, os vizinhos. Saudade do cheiro das frutas exóticas daquele lugar.

Olhe para trás e lembre-se dos sabores deliciosos que, na vida, cultivou.


Sândra Camilo  18- 08- 2009


sábado, 8 de agosto de 2009

Especial para o dia dos pais




A lua cheia banhava seus admiradores com o brilho de sua luz.

Olhares de esperança, saudade, paixões não assumidas, lembranças do passado.

Era o quilômetro 24,78 da rodovia mais movimentada do estado.

O condutor da Kombi acreditava estar sozinho naquela viagem.

Um estado repleto de casas, luzes e pessoas — e ele ali, sozinho, observando a lua, conduzindo a Kombi, conversando com o próprio íntimo, como se estivesse realmente só.

A lua, testemunha de seu passado e dos seus atos.

A viagem demorou o dobro e será lembrada sempre que seu íntimo for sincero.

Algumas estradas, cidades e pessoas foram esquecidas pelo condutor.

Apenas a Kombi foi lembrada e levada naquela viagem.


Sândra Camilo  08-08-2009 


domingo, 2 de agosto de 2009

Teria ela três pernas?


...

Quem via a cena de longe ficava na dúvida: teria ela três pernas?

A pequena era magra, feito o cabo da enxada. Olhar centrado, mente perdida entre matos e plantas… o que poderia estar pensando aquela pequena cabeça?

Talvez lembrasse dos brinquedos deixados no canto do quarto,
talvez fizesse cálculos de quanto tempo levaria para terminar — quem sabe a lição que a professora passou na última aula,
ou ainda viagens feitas pelo Estadão.

Era um emaranhado de informações na cabeça da pequena.

Sim… quando falei que poderia confundir por parecer ter três pernas, a terceira era a enxada, escorada no chão a cada cinco carpinadas. Os braços compridos e franzinos não suportavam por muito tempo o peso da ferramenta.

O dever do dia foi cumprido.

Saiu correndo entre plantações de caju, com os braços abertos, sentindo o vento tocar-lhe o rosto — como gostava de fazer nas viagens, olhando pelo retrovisor da Kombi, onde, por muitas vezes, brincou com as próprias mãos ao vento.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Andei 665 km de Kombi




Foi com passos largos que percorri 665 km de Kombi até chegarmos ao destino.

Um lugar rústico, iluminado por candeeiros, como na época de meus avós. Sons de animais silvestres ecoavam, e, no céu estrelado, avistávamos as Três Marias.

Saímos cedo de casa, passando por diversas pequenas cidades. Um Estadão que cruzamos… cruzamos… e ainda assim parecíamos longe do destino.

O rádio sempre ligado. O locutor era substituído por diversas vezes. Tocavam músicas de sucesso, antigas, românticas  e aquelas famosas que fazem o peito doer de tanta saudade.

Quando falei em passos largos, referia-me à velocidade do condutor da Kombi. Enquanto acompanhava as músicas com sua voz, acelerava sem medo, não me dando tempo de ler as placas por completo.

Encantada com os diversos outdoors, admirava as propagandas… e o belo visual das cidades construídas pelo tempo.

Viajava em histórias criadas em minha mente a cada instante, a cada quilômetro percorrido.



Sândra Camilo


28.07.2009.

Cada palavra escrita




A minha alma expele felicidade ...

Por cada palavra escrita... nos roteiros criados em meus pensamentos...e deixo transbordar a liberdade



Sândra Camilo

domingo, 26 de julho de 2009

kombi Vermelha - Viagens pelo Estadao


UM EPISÓDIO DE MUITOS DO ESTADAO

Em minhas memórias, as viagens sempre foram longas.

Numa noite, fazia anotações das placas que via e lia.

Não sabia o que fazia ali… apenas tinha que ir.

As estradas de um grande Estadão  sim, porque São Paulo é um grande Estadão!

A Kombi vermelha era nossa condutora de rodas, e nós, seus companheiros.

Tratava-se de “pactos com o passado”. Hoje, os tenho como cenas curtas, lembradas insistentemente no decorrer dos meus dias.

O condutor da Kombi vermelha chegara à idade madura para os senhores, velho para os jovens e jovem para os velhos.

A placa que vi e li dizia assim: “Cavalo dado não se olha os dentes”. Exatamente no momento em que eu iria reclamar da demora  nunca chegava, e aquele estado foi se tornando grande demais.

Toda vez que perguntava: “Aonde vamos dessa vez?”, a resposta era a mesma… “Aqui mesmo no estado.”

Que estado é esse que não acaba e nunca chega?

Voltando à placa que li… “Cavalo dado não se olha os dentes”. Esse ditado popular, escrito na traseira de um caminhão, me fez ficar pensativa. Sim… porque, uma vez, enchi tanto o condutor da Kombi de perguntas… “Está perto?”, “Está chegando?”, “Falta muito?”… essas coisas…

E, quando chegamos… um lugar pra lá de lindo.

Lindo para quadros… cenas de filmes… recitar poemas… correr e correr, brincando com borboletas.

Não sinto saudades dos longos passeios, de correr atrás de borboletas, das distantes estradas dentro de um só estado.

A saudade é só do condutor falante.

Mais um episódio da Kombi no Estadão.

26.07.2009

Sândra Camilo

Renúncia




Publicado no Livro “PALAVRAS DO CORAÇÃO”, de Sandra Camillo

Renúncia

Renunciar por amor.

Ter que buscar a coragem
para renunciar!

Passei dias me preparando
para o dia.

O dia da renúncia.

No momento em que
fiz oportuno,

a dor era como um parto 
profundo,
na alma,
no peito
e no coração.

E a alma?

A alma se sentia penada,
jogada para fora do corpo,
ao vento e ao relento.

A força interna
não existia

e resistia
à dor maior,

à suprema dor,

a dor que a renúncia causou.

O amor
do coração
e da alma.

Amor de alma,
amor de carma,
amor com paixão.

E agora… entregue à solidão.

Renunciar por amor,
com dor e sem pudor.

O momento em que fiz oportuno,
assinando o sepultamento
de uma história 
uma verdadeira história de amor.


31.01.2007 14h00min

Atuar







27-07-2009
Sândra Camilo