quinta-feira, 9 de abril de 2026

Crónica – 665 quilômetros



Foi com passos largos que percorri 665 quilômetros de Kombi até chegarmos ao destino.

Saímos cedo, ainda com o corpo carregando o silêncio da manhã. A estrada de terra parecia infinita — um traço contínuo entre pequenas cidades que surgiam e desapareciam sem aviso. Cruzamos o Estadão como quem atravessa um tempo que não se mede em horas, mas em distância sentida.

E ainda assim… parecia que não chegávamos nunca.

Havia algo naquele percurso que suspendia o tempo. Talvez fosse a luz dos candeeiros, tão parecida com a da época de meus avós, ou o som distante dos animais silvestres, que nos acompanhava como um fundo invisível. À noite, o céu se abria em estrelas, e lá estavam elas — as Três Marias — firmes, como um ponto de orientação para quem se perde por dentro.

O rádio nunca se calava.

O locutor mudava, as vozes se alternavam, mas a trilha seguia: músicas antigas, românticas, dessas que parecem tocar não só os ouvidos, mas algum lugar mais fundo, onde a memória ainda respira. Algumas canções traziam uma dor suave, uma saudade sem nome, daquelas que apertam o peito sem pedir explicação.

Quando falo em passos largos, não me refiro ao tempo — mas à velocidade.

O condutor da Kombi dirigia como quem canta junto. Acompanhava cada música com a própria voz, enquanto acelerava sem hesitar. As placas passavam rápidas demais; não havia tempo para lê-las por completo. Era como se o caminho não precisasse ser compreendido, apenas atravessado.

Do lado de fora, os outdoors se sucediam — promessas, produtos, histórias interrompidas. Eu os observava como quem tenta decifrar um mundo em movimento. As cidades, construídas pelo tempo, revelavam seus contornos em detalhes silenciosos: fachadas gastas, esquinas vividas, janelas que guardavam vidas inteiras.

E eu… viajava.

Não apenas pela estrada, mas pelas histórias que inventava a cada quilômetro. Criava vidas, destinos, encontros que nunca aconteceram — e, ainda assim, pareciam reais.

Talvez seja isso viajar.

Não apenas chegar a um lugar, mas permitir-se existir em todos os outros que a imaginação alcança.

E, entre uma canção e outra, entre uma cidade e outra, eu seguia — levando comigo aquilo que não se vê, mas que permanece.


Sândra Camilo - 9 de abril  de 2026 

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