Em minhas memórias, as viagens sempre foram longas.
Não longas apenas em quilômetros, mas longas no tempo que ocupavam dentro de mim. Eram daquelas viagens que não terminam quando se chega, porque continuam acontecendo na lembrança.
Numa dessas noites, eu fazia anotações das placas que via e lia. Não sabia exatamente por quê. Apenas sentia que precisava registrar algo — como se aquelas palavras, espalhadas pelas estradas, fossem pistas de um caminho maior.
Eu não sabia o que fazia ali… apenas tinha que ir.
As estradas de um grande Estadão — sim, porque São Paulo é um grande Estadão. Um lugar que parece não terminar nunca, que se estende além do que os olhos alcançam e, às vezes, além do que o coração consegue compreender.
A Kombi vermelha era nossa condutora de rodas. E nós, seus companheiros de travessia.
Havia, naquele movimento constante, algo que hoje reconheço como pactos com o passado. Na época, eu não entendia. Hoje, são cenas curtas que voltam, insistentes, no decorrer dos meus dias — como pequenos filmes que se repetem sem pedir licença.
O condutor da Kombi vermelha…
tinha uma idade difícil de definir. Era maduro para os senhores, velho para os jovens e, curiosamente, jovem para os velhos. Talvez fosse apenas alguém que carregava o tempo de um jeito diferente.
Lembro-me de uma placa.
“Cavalo dado não se olha os dentes.”
Li aquela frase exatamente no momento em que eu estava prestes a reclamar da demora. Porque nunca chegávamos. Porque aquele estado parecia crescer à medida que avançávamos.
Toda vez que eu perguntava:
— Aonde vamos dessa vez?
A resposta era sempre a mesma:
— Aqui mesmo no estado.
E eu pensava, em silêncio:
que estado é esse que não acaba e nunca chega?
Aquela placa, escrita na traseira de um caminhão, ficou comigo. Não pela frase em si, mas pelo momento em que ela apareceu. Talvez tenha sido ali que comecei a entender que nem tudo precisa ser questionado. Que algumas coisas apenas acontecem — e cabem a nós atravessá-las.
Ainda assim, eu perguntava.
Perguntava muito.
— Está perto?
— Está chegando?
— Falta muito?
Perguntas de quem não sabe esperar… ou de quem ainda não aprendeu a viajar.
E, então, chegávamos.
E o lugar era sempre… surpreendente.
Lindo para quadros.
Para cenas de filmes.
Para recitar poemas em voz baixa.
Para correr sem destino, brincando com borboletas como se o tempo tivesse parado só para nós.
Hoje, quando volto a essas memórias, percebo algo curioso.
Não sinto saudade dos longos passeios.
Nem de correr atrás de borboletas.
Nem das estradas intermináveis dentro de um só estado.
A saudade…
é só do condutor falante.
Talvez porque, no fim, não era a estrada que importava.
Era quem a atravessava comigo.
Mais um episódio da Kombi no Estadão.
Sândra Camilo

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